terça-feira, 11 de novembro de 2008

Adoção, vitória

Ao se aproximar o momento em que todos os participantes desta blogagem coletiva sobre adoção iriam postar seus textos, fiquei numa expectativa enorme.
Chegou o momento e estou muito feliz por poder participar deste movimento maravilhoso, encabeçado por Georgia e Dácio. Sou grata a eles que, direta ou indiretamente, nos convidaram a participar.
Em meu humilde texto, relato uma história verdadeira, relembrada com lágrimas quando a escrevi.
Entrego-lhes com muito carinho e respeito.
Obrigada! Muita paz!

Em nosso trabalho voluntário, lá no Centro de Assistência e Promoção Social Ana Vieira (CAPSAV), nos deparamos com muitas histórias. Especialmente lá na creche, somos obrigados a conhecer a história de todas as crianças e suas famílias.
O CAPSAV é constituído por 03 unidades, uma delas é a Creche Irmã Chiquinha que recebe, diariamente, 130 crianças de 0 a 4 anos, de famílias totalmente carentes. Porém, as mãezinhas têm de comprovar que trabalham e que não tem onde deixar seus filhos.
O fato de serem carentes no sentido material, não significa que todas as famílias que são assistidas sejam ignorantes. Têm mães e pais que estudam também, além de trabalharem.
Certa vez enfrentamos um problema muito dramático. Tínhamos, aos nossos cuidados, três crianças que ficavam lá na creche das 7 h da manhã até as 17:30 h, quando sua mãe, a Maria, ia buscá-los, após seu dia de trabalho. À noite estas crianças ficavam com o pai, pois a Maria estudava. Fazia supletivo para poder ter mais preparo. Ela queria melhorar de vida, ter um emprego melhor e, para isso, enfrentava a jornada de aulas noturnas, depois de um longo dia de trabalho pesado.
Esta mãezinha sofria de asma que lhe causava grande sofrimento. Fazia uso de medicamentos, inclusive, aquelas “bombinhas” com medicamento bronco dilatador. O pai, desempregado, fazia uso constante de alcoólicos, trazendo muitos aborrecimentos, não só à mãe como também às crianças e a nós, da creche.
Certa vez, numa sexta-feira, a mãe foi retirar as crianças e observamos que ela estava muito mal, atacada da bronquite asmática que lhe fazia sofrer muito. Debilitada ao extremo, percebemos o imenso cansaço e desespero desta mãe.
O seu filho mais velho, de nome Álvaro, já havia ficado alguns finais de semana na casa de uma de nossas diretoras, a Laura, que queria, justamente, colaborar com esta mãe que, aos finais de semana, tinha de arrumar sua casa, lavar as roupas das crianças e as dela e do marido, cozinhar, passar e tudo o mais que se tem a fazer em casa. O marido, sempre bêbado, em nada colaborava. Ao contrário, só trazia mais problemas com sua bebedeira, originando dívidas, brigas na rua e em casa, chegando inclusive a bater nas crianças e na mulher.
Laura estava se apegando demais ao menino Álvaro e ele a ela. O pai ficava muito enciumado e chegou, algumas vezes, a impedir que o menino ficasse com Laura.
Neste dia, na sexta-feira, quando vimos o grande abatimento da mãezinha, Laura ofereceu-se para ficar com o menino e a mãe negou dizendo que o pai havia proibido.
Na segunda-feira, logo de manhãzinha, recebemos as crianças como de costume. Sentimos a ausência daquelas três crianças. Ainda durante a amanhã, chega-nos a triste notícia. Maria, a mãe das três crianças, havia ficado muito mal na sexta-feira e durante todo o sábado. O marido, sempre fora de casa, bêbado, chegara somente no domingo, como costumava fazer. Os vizinhos relataram que as crianças estavam chorando muito, desde a noite de sábado e durante toda a madrugada. O homem abre a porta da casa humilde e se depara com o corpo da esposa, já enrijecido. Sim. Morta. Quem poderá dizer o sofrimento desta mãezinha, sem ar para respirar, usou o medicamento à exaustão. Seu coração não suportou o excesso do medicamento. Ela faleceu, tentando viver. As crianças, de tanto chorarem, adormeceram ao lado do corpo da mãe e só acordaram com o movimento e barulho do pai ao entrar em casa, junto com os vizinhos.
O desespero toma conta de nossa querida Laura. Todos nós, compadecidos com o acontecimento trágico, não conseguíamos atinar com as idéias.
Bem, foram dias tristes e semanas intensas de providências que tiveram que ser tomadas, dando assistência a esta família.
Durante este período, as crianças foram divididas entre familiares, haja vista a incapacidade do pai, por sua condição de alcoólatra. O menino maior, Álvaro, ficou em casa de Laura. Os outros menores ficaram em casa de parentes próximos.
Os dias corriam normais e Laura se apegava cada vez mais ao menino. O pai, enciumado, ia à creche e sempre fazia confusão, muitas vezes com discussão exacerbada sobre o menino e com nossa colega Laura. Um dia, Laura protocoliza, na Vara de Família do poder judiciário, o pedido de guarda desta criança e, após exaustivo processo, consegue a guarda provisória.
O pai, inconformado, passa a infernizar a vida de nossa querida Laura, entrando também na justiça para reaver a guarda do menino. O processo foi longo e doloroso. O menino, na época, estava com 4 anos de idade e no ano seguinte não poderia mais freqüentar a creche, pois nosso trabalho é dedicado a crianças de zero a 4 anos e 11 meses.
Sempre encaminhamos as crianças da creche quando alcançam esta faixa etária, para as escolas municipais de educação infantil, para onde o menino Álvaro seria encaminhado.
Com o processo em andamento, o juiz da Vara de família devolve a guarda ao pai que desaparece com as crianças e ficamos sem notícias por longo tempo.
Com imenso pesar Laura prosseguiu no trabalho redentor da creche, sempre lembrando do menino Álvaro e seus irmãozinhos, temendo pelo destino de todos.
Os anos se passaram. Oito anos, para ser mais exata. Numa manhã, iniciando os trabalhos da creche, surge no portão uma mulher com 03 crianças aos seus cuidados, uma delas, um pré-adolescente, loirinho e tímido. Ao ver Laura o menino abre um enorme sorriso e corre ao seu encontro, abraçando-a em prantos. No mesmo instante Laura reconhece Álvaro, agora tão crescido, com ares de homenzinho, nos seus 12 anos.
A alegria e emoção envolveram a todos os funcionários da creche. Todos queriam saber dele tudo o que havia se passado.
A mulher, que era a tia das crianças, relatou a triste história. O pai das crianças, quando obteve a guarda de Álvaro e dos irmãos, mudou de cidade. Voltou para seu lugar de nascimento, no nordeste brasileiro, sem destino, sem emprego, sem nada. Durante todo este tempo, fazia “bicos” para obter algum dinheiro e consorciou-se com várias mulheres, explorando-as de todas as maneiras, exigindo delas que cuidassem das crianças. Álvaro e seus irmãos sofreram todo tipo de maus tratos, passando até fome e sofrendo violências físicas, como surras e cárcere privado.
Esta tia havia prometido diante do túmulo da irmã querida que morrera deixando os filhos, cuidar deles ou, pelo menos, encaminhá-los para que tivessem educação e segurança.
Fez contatos com familiares das crianças, lá no nordeste e conseguiu o paradeiro deles.
Com ajuda de força policial, trouxe as crianças de volta para SP e nos procurou, na creche, a fim de ter a orientação necessária para bem cuidar dos menores.
Nossa Instituição a ajudou em tudo. Nossa querida Laura agilizou tudo para que as crianças menores pudessem ficar com a tia. Esta tia concordou que Álvaro deveria ficar com Laura de quem o pai jamais deveria ter tirado.
Após os trâmites legais, Laura, mesmo com 74 anos de idade, ganhou a guarda definitiva de Álvaro e a tia a guarda definitiva dos outros dois menores. O meritíssimo Juiz estabeleceu, também, a não aproximação do pai das crianças, sob pena de prisão, caso ele insistisse.
Hoje Álvaro já está com 16 anos e estudando o curso de ensino médio. Pretende fazer faculdade de Direito e abraçar as causas de família. Seus dois irmãozinhos também estão estudando e vivem felizes em companhia da tia querida.
Neste meio tempo, Laura ficou viúva, mas, sente-se feliz pela dádiva da vida, por tudo de bom que a vida lhe ofereceu e por Deus ter-lhe trazido Álvaro, seu filho adotivo amado, de volta. Com certeza ele cuidará de sua velhice com todo amor e carinho.

19 comentários:

Beti Timm disse...

Sônia,
Que bom te ter novamente lá no meu cantinho( aliás, estiveste sempre presente, estou me queixando de barriga cheia...rs).Tua história, carregada de momentos bons e ruins, e com detalhes que me dizem muito, da minha vida, prova que o destino quando escrito não se apaga. Podem passar anos, séculos, o que tem que acontecer, não nos foge das mãos. E que bom que o destino neste caso deu, uma chance de felicidade para duas pessoas, a tia Laura e o menino. A bondade e o amor sempre prevalece, mesmo que a duras penas. Adorei o teu relato, ansiei pelo fim que tinha certeza seria um final feliz.

Beijos também legítimos como os seu e vindo do meu coração.

Georgia disse...

Sonia, que história sofrida, mas gracas a Deus com um final feliz.
Eu fico impressionada com a lei. Há casos como estes que já se sabe que o pai nao teria condicoes de cuidar das criancas. E quanta maldade desse homem também, em nao desejar o melhor para o seu filho. Ele nao ama a ninguém, nem a ele próprio.

A morosidade do processo é outra triste realidade. Quantas criancas e maes, vivem uma tragédia de vida por causa de juízes que nao estao nem ai para este tipo de coisa. É triste e é revoltante.

Vi nesta história que teve um final feliz, mas muitos e uma maioria deles, a vida nao dá essa segunda chance.

Fico feliz em saber que ele quer estudar e ser advogado. Quem sabe ele vai fazer algo em prol das criancas que vivem em situacoes como ele viveu.

Muito obrigada.

Um grande beijo

Miguel disse...

Querida, dizer o que?
Te conhecendo, eu sei que sofres e vibras com todos os casos vivenciados no teu voluntariado.
Sensibilidade, se já tinhas, aflorou com muito mais vigor.
Às vezes, sinto uma invejinha, por ter nossos momentos abreviados por caisa dessa atividade.
Depois, me penitencio, pois sei que essa tua atividade é de suma importância.
Agora, não quero mesmo, nunca mais ouvir que vais parar de escrever. Aqui, neste texto, está a prova de tua capacidade.
Beijos e Paz meu bem!

Lino disse...

Ainda bem que tudo terminou bem. Seria triste que as crinças ficassem ao desamparo.

Sonia H. disse...

Que história comovente, Sonia.
Tenho a certeza que aquela maezinha descansa em paz, pois seus filhos agora encontraram um lar de verdade e amor verdadeiro também.
Obrigada por compartilhar.

loba disse...

Ai meu Deus, como a vida é pesada pra algumas pessoas, né? Lendo uma história como esta é que a gente percebe o quanto temos sorte de ter uma familia constituida, bom emprego e boas expectativas para o futuro. Tudo que faltou a esta mãe e a estas crianças durante bom tempo de vida delas.
Uma história de vida! E emocionante, Sônia!
Um beijo, querida.

Ana Lúcia. disse...

Soninha.
Ler esta exaustiva e dolorida adoção levou-me aos prantos!
Impossível interpretar e não sofrer até faltar o fôlego, e, ao mesmo tempo ansiar por um final feliz. E ele aconteceu Graças a Deus!!
Tempos difíceis fazem parte dos passos de todos nós, simples HUMANOS. Entretanto, alguns percalços chegam a doer profundamente na alma, no coração e no corpo, principalmente de uma MÃE.
Foi vibrante acompanhar as dificuldades trazendo no pensamento a confiança e a esperança de dias melhores para todos. Isso aconteceu, entretanto, existiu a dor da perda. A dor do FIM irreversível. Um instante de dor aguda, e o início indireto da paz dos três irmãos.
Infelizmente, nossas estradas são falíveis, e também têm espaço para a dor, a saudade, sol sem claridade, estrela sem luz... Eis que o Senhor nos concede o tempo, este tem entre seus percursos o dever de minimizar sofrimentos, amenizar dores e confortar pensamentos.
E o pensamento e a Laura, de mãos fortes entrelaçam a LUZ que fez renascer a vida de todos. Reconstruiu a esperança de três irmãos queridos.
Soninha parabéns por reproduzir com palavras marcantes este relato dolorido e poético.
Parabéns por ter participado, tenho certeza, com orações e força para que o final feliz chegasse com mais rapidez, com mais velocidade em nome da PAZ e do AMOR!
Termino aqui, aplaudindo tudo e todos e acreditando que para Deus tudo é POSSÍVEL!!
Beijãozinho. Carinho. Sorriso alagado... (rs)

Nina disse...

Oi Sônia!

que linda, triste e tão real história. Imagino a quantidade de coisas que vcs vivem numa creche.

a mãe do Álvaro, que triste, que sofrido, o pai, tao igual a tantos pais, infelizmente, que nao sabem dar o amor que têm dentro de si, a Laura que mostrou tanto amor pelo meninoe que foi recompensada, a tia que foi corajosa e enfrentou tudo pelo bem dos meninos, o Álvaro que tá um rapaz e que vai trilhar o caminho pelo bem das famílias... que história bonita!
mais uma dessa blogagem linda...

bjs pra ti

Crys disse...

Acabei de chegar do Miguelito, com os olhos ainda marejados e chego aqui... Ahhh, assim eu não aguento!

Que bom que, apesar de tantas pedras no caminho das crianças, o final é de paz!
Enviei um relato para Georgia, sobre uma das crianças da creche em que sou voluntária... o final da história desta criança, ainda não sabemos, mas estamos torcendo para que seja igual do Álvaro e seus irmãos. Feliz!
Beijos, minha linda!

Jens disse...

Oi Sonia.
História triste, dolorida e comovente.Porém, a solidariedade venceu. Isto é o mais importante. Amor, sempre.
Um abraço.

Espaço Mensaleiro disse...

Muito obrigada.

Eliana

Gilson disse...

Olá Sonia,

Claro que já visitei seu Blog e, achei muito especial o seu jeito de escrever.

Adorei a estória da adoção das crianças, quase chorei, muito triste certas coisas que ocorrem sómente entre seres humanos, não acha?

Não tenho coragem de deixar algum comentário,pois não sei se me expressaria direito;sabe fico meio envergonhado de escrever e não estar correto algumas palavras, mas achei lindo.

um beijo na bochecha, vc. é muito especial, pode acreditar.

Gilson

Anna Lúcia disse...

Soninha, minha amiga querida!

Conheço bem esta história que vc aprsentou aqui. Lembro-me que, qdo aconteceu, vc comentou conosco.
Embora as crianças tenham passado pelo trauma da morte da mãe, logo superaram, pois eles eram pequeninos demais. Creio que o mais traumático foi o pai os ter levado embora e os ter submetido à perversidade das amantes e dele próprio.
Que bom que a tia deles se empenhou para encontrá-los e traze-los de volta para um meio onde as pessoas os respeitam e os amam e que tudo fizeram para o bem estar das crianças, não é mesmo?
Você me disse que Álvaro está um moço muito bonito e que continua tímido, mas, estudioso e esforçado, né? Graças a Deus.
Parabéns pelo seu texto e por esta campanha linda.
Saudade de você. Venha me visitar.
Beijos!

Roseli Venancio Pedroso disse...

Oi Sonia, passei para conhecer seu espaço e me deparo com essa história. Uau! Quem precisa da ficção se a realidade as vezes é demais!! Grande história. Que bom que teve um final feliz.
Bjs

dácio jaegger & Georgia disse...

Pois é Sonia, Soninha...rs. A blogagem está aí, vc aceitou o convite e para um bem especial que é trazer a história comovente, tão carregada de sofrimento e que envolveu pessoas queridas. O destino prega peças, mas ele pode ser modificado para muitos quando em torno se agregam as forças do bem. O final feliz tão almejado é o prêmio cobiçado. Obrigado pelo depoimento. Obrigado de coração. Abraço

Fábio Mayer disse...

Muta gente diz que blogagem coletiva não tem importância, porque não gera efeitos práticos.

Eu discordo, especialmente com o que representa ESTA blogagem sobre a adoção.

Isso porque, o grande efeito desta blogagem é fazer com que uma pessoa que esteja pensando em adotar, tenha subsídios para decidir pelo sim ou pelo não, em razão do fato de que os muitos post sobre ela, mostram as várias faces da questão.

Anônimo disse...

Que lindo trabalho.
Beijos,
Cam ( cameliadepedra.blogspot.com)

loba disse...

Sônia!
Hj vim agradecer! Foi muito bom receber suas palavras, moça!
Um grande beijo e torçamos muito para que Adoção seja um capítulo sempre aberto na vida de todos nós!

Nadja Saori disse...

Muito tocante sua história, realmente muito linda. A vida é engraçada mesmo, fiquei feliz de ver que a Laura conseguiu rever as crianças e ajudá-las. Noss,a e também espantada que o menino a reconheceu!!!!
Espero que esta história sirva de inspiração a outros também... e espero que este pai tenha tomado vergonha na cara... de verdade... pois se não, pdoe estar fazendo mal ára mais alguém....

Beijos