quarta-feira, 17 de março de 2010

Debaixo da escada da sala

Ah, dona Sonia, não sei mexer nesse troço, não! Assim se justificava a Josi, auxiliar doméstica, em meu primeiros tempos de casada, nos idos de 1977.
Josicleide, ou simplesmente Josi, como gostava de ser chamada, era uma destas pessoas muito simples, vinda do nordeste do Brasil para São Paulo, tentar uma vida melhor, com trabalho honesto. Sem instrução escolar alguma e já com idade madura, obviamente se prestou aos serviços domésticos, função que desempenhava muito bem, pois era limpa e organizada.
Mas, quando o assunto era telefone, ela entrava em pânico. Tinha medo de chegar perto do aparelho. Chegava até a chorar, caso eu insistisse para ela atender.
Naquela época eu ainda lecionava e tinha de sair em determinados horários, deixando Josi em casa, trabalhando solícita.
Josi, se o telefone tocar, atenda, por favor e anote os recados.
Deus me livre, dona Sonia, desconjuro, valha-me Deus.
Deixe disso, Josi. Você precisa vencer este medo e aprender a atender ao telefone. Você verá como sua vida vai mudar. Encurtam-se distâncias com ele. Ficamos pertinho das pessoas, mesmo quando elas estão bem longe.
Com muita insistência de minha parte e com muita paciência, fui demovendo este bloqueio de Josi. Após alguns meses, ela, até, atendia quando o aparelho tocava...ficava ouvindo, sem nada dizer. Só balançava a cabeça, concordando ou discordando, como se estivesse conversando pessoalmente.
Eu insistia para ela falar, pois a outra pessoa não a estava vendo.
Josi, diga alo....diga de onde está falando...
Como é que faz, dona Sonia?
O telefone toca, você atende e diz alo. A pessoa do outro lado, provavelmente, dirá alo e perguntará de onde fala. Então você responde que é daqui de casa. Tem que falar de onde está falando, entendeu? Entendi.
Neste instante, o telefone toca.
Atenda, Josi. Sim, senhora.
Alo. Alo. De onde falam?
E, Josi, corajosamente responde: Debaixo da escada da sala.
O telefone ficava sobre a mesinha console, bem debaixo da escada da sala de estar e ela não se fez de rogada...respondeu com exatidão.
Depois de muito rir, fui em seu auxílio e atendi ao telefone.
Claro que, depois, lhe expliquei a forma correta de atender.
Realmente, a vida de Josi mudou. E a minha também, com a conta de telefone bem gorda, pelas muitas ligações que Josi passou a fazer para seus familiares.

8 comentários:

Claudia disse...

Ai Mana, ri muito em recordar dessa passagem, porem nao me recordava no nome dessa empregada.
Mas que essa passagem marcou tanto q até hj uso como exemplo de comunicação em meus treinamentos.
Adorei relembrar.
Bjs no coração
Amo vc forever pra sempre rss

PS: O Cu vai ficar bravo pq comentei aqui e naocomentei o dele heheheheh

Celso Ramos disse...

Olá Soninha!!!

Essa passagem, com certeza, divertida mostra como ampliamos nossos horizontes ao travarmos contato com a ferramenta tecnológica. A medida que vamos nos relacionando com esses aparatos vamos deixando a ingenuidade de lado. No caso de D. Josi isso é evidente!!!
Um abraço!!!

Miguel disse...

Oiamor,
este caso é tipico, pessoas vindas do agreste, sem conhecimento das tecnologias e nmodernidades, ficam assustadas quando precisam fazer uso das mesmas.
Seu "causo", bastante engraçado e relatado com maestria, me fez lembrar de uma passagem tambem muiuto engraçada.
Acho que já lhe contei, mas não a relatei nas minhas memórias.
Qualquer dia eu crio coragem, mansdo a preguiça embvora e escrevo.
Ah! Vc percebeu que a criatura sempre sobrepuja o0 criador, criadora no seu caso?
beijos

Cecília disse...

Lembrei de meu pai aprendendo a usar o computador para fazer o teste do Detran para renovar a carteira de motorista...
Foi bom ela aprender pra anotar os recados, mas para o seu bolso...

Beijão

Jeanne disse...

Querida amiga, que história engraçada! E ao mesmo tempo bonita e comovente. Como é bom participar da evolução de uma pessoa humilde!
Fica com Deus, beijos

Dilberto L. Rosa disse...

Muito bom, minha cara: bons tempos que não voltam mais, os de quando o telefone era um verdadeiro patrimônio e algo de mais "moderno" para as empregadas, hoje já íntimas de qualquer Orkut ou Facebook, não?! Pior para você, depois que entregou o "ouro" para Josi rs! Abração!

Silvana Nunes .'. disse...

Boa tarde.
Temos que andar conforme a modernidade, caso contrário ficaremos para trás semprew.
Passando para dar uma espiada nas novidades e dar os parabéns pelo dia de ontem.
Desculpe a minha ausência esta semana, mas estou sem internet, tendo que recorrer a uma lanhouse, coisa não gosto muito de recorrer a estes lugares, mas... fazer o quê. Para quem mora dentro do mato como eu, é a única opção no momento, assim mesmo muito lenta.
Não sei por quanto tempo vou ficar sem conexão, o 3G apresentou um problema e estou aguardando uma solução (sentada porque em pé vai cansar ), mas espero que não me abandone.
Quando eu não contar para vocês uma história todos os dias é porque estou com problemas . Adoro essa relação, pode crer.
FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... aproveita para desejar um bom final de semana.
Saudações Florestais !
em http://www.silnunesprof.blogspot.com

Ilaine disse...

Ah, que delícia de história . Lembrei de minha mãe, que passou ater telefone na aldeia onde mora, quando as filhas todas já estavam fora de casa. Quando ligávamos para ela só respondia,nada contava. E a gente tinha que procurar assunto.

Beijo